• Alessandra Andrade

Minha Mulher Não Trabalha!

Uma análise sobre o trabalho doméstico não-remunerado: um dos pilares do capitalismo.


Quem já não ouviu esta fala? Minha mulher não trabalha, fica em casa cuidando da casa e dos filhos. Como se o cuidar da casa fosse ficar sentada numa cadeira observando enquanto toda rotina, limpeza e administração de uma casa e família fosse magicamente tomando o seu lugar, todos os dias. E quando nos referimos ao Dia do Trabalhador, seguramente nos referimos ao trabalho feito fora de casa.


Então vejamos, como fomos cair nesta arapuca?


Com a instituição da propriedade privada, a transmutação do direito materno ao poder patriarcal, e a coisificação de mulheres e crianças como propriedade do patriarca, mulheres que antes eram vistas como seres humanos tanto quanto homens, foram confinadas dentro de suas casas para garantir que ela só geraria filhos daquele homem – em outro momento podemos falar sobre como as famílias eram constituídas. A propósito, família, no direito Romano tem a seguinte definição:

Famulus quer dizer escravo doméstico e família é o conjunto de escravos pertencentes a um mesmo homem. (...) A expressão foi inventada pelos romanos para designar um novo organismo social, cujo chefe mantinha sob seu poder a mulher, os filhos e certo número de escravos, com o pátrio poder romano e o dinheiro de vida e morte sobre todos eles.”[i]


Além da opressão pela possibilidade de gerar e trazer vida ao mundo, a separação das mulheres consistia e minimizar a possibilidade de cooperação, reação ou organização, que era a base dos grupos sociais ou ”famílias coletivas”, até então existentes. Quando se coloca um valor monetário sobre as pessoas, quem não produz valor, não tem valor. E assim constituiu-se que o trabalho doméstico não gera valor, portanto não precisa ser pago. Na verdade, criou-se uma cultura de chamar trabalho doméstico não remunerado de amor. Lindo, não?


Mas, então, o trabalho doméstico não tem valor? Não gera lucro? Não movimenta o mercado?

Ora, nós mulheres produzimos pessoas, e o “amor” que damos às nossas famílias é o que sustenta a economia. Somos produtoras de gente, de mão-de-obra, do proletariado, historicamente falando.


Segundo Silvia Federici[ii], a mulher que cuida do lar e da família é quem sustenta a economia global — se há um homem trabalhando e crianças crescendo para se tornarem trabalhadores, diz, é porque há uma mulher tomando conta deles. Por esse trabalho, que não é amor nem parte da natureza feminina, as mulheres deveriam ser pagas.


Para Federici, o debate sobre a situação das mulheres na pandemia é importante, já que, elas estão se dando conta do quanto são exploradas. Para ela, a mulher está no centro da crise sanitária atual.


É importante citar que sistema que mantém as mulheres nesta situação é autossustentável, se é que podemos chamar assim, já que acaba por diminuir em muito as chances de as mulheres optarem por outra forma de vida que não seja a servidão, uma doutrinação que inicia na infância. Como poderíamos tomar conta da casa, do companheiro, ou mesmo dos pais, dos filhos, administrar um lar, cuidar de todos em todos os aspectos cotidianos e ainda estudar, trabalhar fora, pensar em ter alguma perspectiva, sonhar.


Algumas poucas conseguem, mas a que preço? Bastaria uma greve de 10 anos, sem a produção de mão de obra, para que toda a sociedade sentisse a necessidade de mudar o sistema e ver que o patriarcado é um sistema fadado ao fracasso, já que é um sistema opressor, de manutenção do capitalismo, que faz com que homens sejam treinados a acreditarem que seu sucesso vem de quanta força ou dinheiro possuam, de que a dominação é alguma benesse. E assim passam a vida trabalhando para adquirirem condições de ter o mínimo que o capitalismo lhes propõe. E para viver uma vida onde a maior parte da sua vida é vendida para o trabalho é necessário que alguém lhe dê o suporte necessário, e assim se dá a divisão sexual do trabalho, do trabalho de casa e da rua, da quase extinção do senso de colaboração.


Sim, mas isso são outros tempos (não para grande parte das mulheres). Agora mulheres estão em quase todos os postos de trabalho alcançados pelos homens, e acumulam trabalho doméstico as suas funções, e ainda continuam sendo as únicas produtoras de vida. Se as relações familiares e monogâmicas fossem mesmo baseadas no amor, por que então há essa exploração?


Culturalmente seria libertador para homens e mulheres estarem num sistema de igualdade, não patriarcal. Então se questiona de onde vem tanta resistência. Não se refere aqui a volta do matriarcado, mas de igualdade de direitos e deveres, de crianças não serem criadas como meninos ou meninas, mas como seres humanos aptos e capazes de realizar qualquer função ou tarefa, sem o peso do machismo, que pesa sobre os homens também.


Mas enquanto esse tempo não chega, falemos mais de quem é o pilar de sustentação do capitalismo, a mulher, a única produtora de força de trabalho, a que faz o pão, a que põe a mesa, a que prepara o alimento, cuida e administra a casa, que marca o horário no médico para os familiares, enfim, quantas horas a mais teria que ter o dia ou quantas horas a menos os homens teriam que trabalhar, se não fosse todo o suporte do trabalho não remunerado.


Segundo Marx, a primeira opressão se classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo masculino e a primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos.

Então, a todas as mulheres de classe trabalhadora, sim acostume-se a se ver assim, classe trabalhadora, orgulhe-se do seu dia, orgulhe-se de ser a base da economia, unam-se e sigamos em luta, até que todas sejamos livres.


Alessandra Andrade

Servidora Pública. Graduada em Gestão pública pela UNINTER e Especialista em Direitos Humanos pela FMP.


[i] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. [ii] Veja mais em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/04/20/silvia-federicci-trabalho-domestico.htm?fbclid=IwAR2w_UcQ9cSoO9zzmIElxlaSc6vGx9bTDJTXV2AMe3-WEOQcqBB2h9laFtY&cmpid